quarta-feira, 8 de julho de 2009

XL

A visão de Chico lendo um livro ainda lhe era inédita, e então Arlindo Orlando por alguns segundos a encarou com cara de genuíno non sense. Não que acreditasse ser o Chico um sujeito desprivado de qualquer espírito literário, mas é que simplesmente, por mera novidade, Arlindo Orlando nunca havia encontrado tal possibilidade. Mas lá estava o seu companheiro de cerveja encarado em uma leitura improvável, que economizava as baterias do pequeno rádio, desligado em um canto.

E naturalmente Arlindo Orlando teve a pontada de curiosidade em saber que diabo de livro era aquele. Mas planejou não inibir aquela leitura com alguma pergunta idiota - somente fez que ignorou o livro, ainda de longe, enquanto chegava na portaria de seu prédio. Mas na verdade prestou bastante atenção na capa e no título. Era um livro cinza, capa simples. Podia ser tanto um livro de piadas como um tratado internacional de anatomia. E a curiosidade seguia espetando-lhe as idéias.

Mas não precisou de planos mirabolantes pra matá-la. Quando se aproximou, o Chico soltou uma risada tão inesperada que chegou a assustar o amigo. Percebendo a presença de Arlindo Orlando, Chico intimou-o a ler o tal livro, assim que ele próprio terminasse de ler. E então pôde ver que se tratava de um romance, de umas 300 e tantas páginas, sem marca de editora, sem nada. Apenas o romance, uma capa, e pronto. Prestou atenção no título, Inventário Amoroso de Antonio não sei o que lá, autor desconhecido - provavelmente desses livros que um sujeito escreve, não vinga, e então ficam uns poucos exemplares circulando pelos sebos, feiras e bancos de praça.

Pediu então emprestado ao Chico quando terminasse a leitura, pensando no quanto faria feliz ao tal desconhecido saber do pequeno milagre que indiretamente havia realizado.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

XXXIX

Há de nascer figura como o Jurandir. O cara é brilhante no que faz: mentir. Mente que nem sente. É daqueles que se envolvem no ato de contar lorotas com tal discernimento, que acabam por acreditar piamente no que dizem, e se ofendem de modo gravíssimo quando acusados. Embora esses hábitos despertem grandes antipatias por parte dos que rodeiam o sujeito em questão, Arlindo Orlando simplesmente acha graça. Queria ter essa capacidade de contar o fato mais distante possível da verdade, e mesmo assim mantê-lo até o fim, como um chefe de navio a pique.

Mas não. Arlindo Orlando sempre teve a honestidade apalermada de não saber mentir. Quando tentou, foram circunstâncias desastrosas, que nunca fez questão de recordar, embora a própria memória renegasse seu direito ao livre arbítrio. Tal realidade a Jurandir era completamente bizarra e alienígena. Jurandir é o tipo do cara que torna uma mentira tão convincente, que ainda que seja totalmente absurda, e que a gente o saiba perfeitamente, ainda fica aquela ponta de dúvida, um "vai que é sério" inevitável.

E felizmente Jurandir detesta política.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

XXXVIII

Arlindo Orlando sentou-se em uma das cadeiras externas do bar, às 11 horas da noite de uma terça, de um céu azul escuro, desbotado e frio. Não queria beber nesse dia, mas também não queria ficar em casa. Não sabia porque, mas a idéia de casa naquele dia lhe trazia séria tristeza.

Era um faniquito que vez e outra lhe assomava, mas que o fazia pensar muito, como se os miolos de repente saíssem pra se exercitar. Mas não era só pensamento, era um aperto estranho no peito, como se alguém lhe enfiasse a mão por dentro e tentasse puxar alguma coisa entranhada e desconhecida.

E agora, ficava ele ali sentado, como se esperasse algo, alguém, ou nada. Arlindo Orlando tinha medo da espera de sua vida resumir-se a um nada, ainda que soubesse que era um sujeito extremamente feliz. Teve o que precisou, quando precisou.

Assim como agora tinha aquele copo de cerveja à sua frente, e todas as memórias que conseguia ainda ter.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

XXXVII

As segundas são sempre dias especiais em termos de que não deveriam existir.

Nessa lógica, Arlindo Orlando se levantou, em sua rotina sem sal, e observou o tempo chuvoso e frio que a janela do corredor contemplava. Não haveria outro jeito, senão deixar os afazeres prá terça, tendo em vista que em dias chuvosos e frios as coisas não funcionam, e muito menos Arlindos Orlandos.

Então sentou-se na cama e ligou o rádio, como maquinalmente fazia todas as manhãs. Bruno e Marrone lhe infectaram os ouvidos como uma peste que invade o organismo desapercebido, enchendo Arlindo Orlando de hipóteses e cismas. Já tinha dito mil vezes à Beth que não mexesse no raio do rádio, mas não adiantou. Enquanto subia o dial, percebia que não chegava a lugar nenhum, enquanto se dava conta de que a Beth não tinha ido à sua casa naquele fim de semana. Quem diabos então teria mexido naquele rádio?

Ninguém. Na verdade, sim. Mas não naquele. Durante a madrugada, a rádio Antena 1, xodó de Arlindo Orlando desde a década de 80, tinha sido retirada do ar, dando lugar à Nativa FM. Por isso Arlindo Orlando poderia subir à vontade seu dial, pois estava certo, 103,7 MHz, errada estava a segunda-feira.

Restaria então se contentar em uma Paradiso da vida, já que o rádio cada dia ficava mais sem lógica, graça e música boa.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

XXXVI

E depois de tanto vai-não-vai, Chico voltou a se arranjar com a Beth. Não precisou insistir muito, só foi necessário o vacilo crucial do sujeito que ocupava seu lugar - foi flagrado com a mão na massa em plena feira de São Cristóvão, sendo a massa uma baita de uma mulata que também trabalhava pelas redondezas. E com isso o reino de Chico retomou-se.

Essa coisa de casais, de encontros e desencontros, pra Arlindo Orlando sempre soou interessante, ao mesmo tempo que engraçada. Tanta gente que discute, que separa, se ofende, e logo volta como se tudo se dissolvesse. É bonita a capacidade humana do esquecimento, e Arlindo Orlando fica satisfeito ao ver o amigo longe de suas amofinações anteriores.

Pelo menos por enquanto.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

XXXV

Arlindo Orlando é chegado em desvarios gratuitos, principalmente se regados a cerveja. Geralmente os melhores papos têm como interlocutor o Chico, porém com uma grave restrição: Chico tem o hábito de querer ser evangélico. Não que seja, mas ele tenta. Ou acha que tenta.

Assim, nas conversas entre os dois, ficam vetadas as heresias, tópico este do qual Arlindo Orlando particularmente gosta muito. Não que ele seja um Herodes da vida, mas é agradável pensar que as coisas são muito diferentes do que imaginamos. A última blafêmia de Arlindo Orlando foi uma de suas conclusões mais mirabolantes com relação ao messias cristão. Nada grave, mas com incrível lógica.

Na imaginação de Arlindo Orlando, Jesus poderia perfeitamente ter sido gay. Isso explicaria muita coisa. Justificaria inclusive a suposta relação entre ele e a famigerada Maria Madalena, uma estratégia divina pra mudar o foco da coisa toda ao relacionamento escuso entre os dois, disfarçando os boatos de que Deus é pai e mãe, e que o filho não fugiu muito à regra.

Também seria justificativa suficiente para a traição de Judas. Ora, pensou Arlindo Orlando, imagine-se um apóstolo, e sua mentalidade provinciana da Judéia Romana, descobrindo tal opção sexual do seu mestre. No mínimo soltaria a franga e apelaria pros canas, como de fato fez. E é claro que os evangelistas dariam certa abafada em toda a polêmica, resultando nas páginas já conhecidas dos catecismos e escolas dominicais.

Terá Arlindo Orlando alguma expectativa de ir ao Paraíso?

Você decide.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

XXXIV

A solução era liquidá-la, sem dó. Uma morte rápida. Dolorosa, porém rápida. Ou nem tanto.

Aquela lagartixa cismava em se esconder em um dos recantos do banheiro, e Arlindo Orlando se amofinava quando se dava conta de sua extrema capacidade de se ocultar. Por muitas vezes se esquecia de sua existência, ou simplesmente chegava à conclusão de que a bexiguenta tinha arranjado um bom motivo pra abandonar o local. Mas não. Sempre surgia a oportunidade de vê-la perambulando pelas paredes no banheiro, principalmente no momento mais crucial: o banho. A lagartixa era covarde e desleal, aparecia nos momentos em que Arlindo Orlando se encontrava desprovido de qualquer meio e de qualquer moral pra que a assassinasse friamente naquele ambiente de azulejos já não tão brancos pelo tempo.

Mas hoje, ainda no início da noite, Arlindo Orlando teve a premeditação de levar a vassoura ao banheiro, e a deixou em um canto, pouco antes de realizar o repetitivo ato de abrir o chuveiro. Adivinhando a umidade no ar, desrefugiou-se a lagartixa, sob a observação fixa de Arlindo Orlando. A inércia repentina e a frieza dos olhos negros lhe causavam uma espécie de transtorno das idéias, mas nem isso impediu que Arlindo Orlando recorresse à arma branca de madeira, e planejasse a intensidade do golpe que aplicaria na intrusa insistente.

Porém não pôde. Ridiculamente posicionado com a vassoura na mão, olhando pro alto, nu, chegou à conclusão de que não conseguiria pôr em prática aquele plano sem originalidades. Se era pena, receio, medo, nojo, não soube. Apenas retornou a vassoura ao seu lugar, e seguiu com seu banho, sob o olhar denso daquela estranha presença.

Arlindo Orlando, o misericordioso.